quinta-feira, 28 de setembro de 2017

"Entendo o resultado do que escrevo como uma espécie de viagem."

À conversa com:
 Paulo Pimentel autor do livro a “Esmeralda do Rei”

Mestre nas palavras, capaz de criar um texto como quem pinta o mais belo dos quadros, Paulo Pimentel deu vida a Esmeralda, a personagem que narra e protagoniza a história do último livro de Paulo Pimentel “A Esmeralda do Rei”. Esmeralda é uma «mulher poderosa e com poder encantatório» que o autor soube transformar numa heroína improvável num tempo que remonta à época medieval, um tempo áspero, cru e cinzento, sobretudo para as mulheres. Portugal estava então sob o reinado de D. Sancho I.
Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses e Alemães, pela Universidade Clássica de Lisboa, Paulo Pimentel especializou-se em Ciências Documentais. Foi docente e também Chefe da Divisão Sócio-Cultural na Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos.
Para além d’A Esmeralda do Rei, Paulo Pimentel escreveu ainda Os contos Serafina; Maria Ruça e Outros Contos e Do Ventre da Terra. A Esmeralda do Rei conta com a chancela das Edições Mahatma.


“Publiquei pela primeira vez um conto (Serafina) em 1997, após vencer o Prémio Literário Lindley Cintra, promovido pela faculdade de letras da Universidade de Lisboa. Não estava mesmo nada à espera. Foi uma boa surpresa, até porque vivia com o estigma de uma professora de literatura medieval que me tinha acusado de não saber escrever. Mais tarde vim a saber que ela tinha integrado o júri do concurso e senti-me vingado. Entreguei o texto no último dia e a narrativa era baseada num episódio real contado pela minha avó. Através da faculdade, tiveram acesso ao texto e a publicação surgiu a convite de uma pequena editora. Depois publiquei em 1999 uma coletânea de contos intitulada Maria Ruça e Outros Contos, um livro, na minha opinião, muito bonito, ilustrado por uma amiga que infelizmente já não está entre nós, a pintora Maria Caldas. Alguns dos textos são já de inspiração histórica e outros de motivação mais contemporânea. Quase todos eles têm a ruralidade e o imaginário rural como fio condutor, que é um universo que marca muito a minha infância e a minha primeira juventude. Em 2008, saiu o livro de contos Do Ventre da Terra, muito ligado à temática das origens e da/s identidade/s. Foram textos que me deram muito prazer escrever. O primeiro deles é narrado pela personagem principal de todo o livro, uma ameixeira velha, com a qual me cruzava todos os dias para ir trabalhar. Apaixonei-me verdadeiramente por aquela árvore centenária, que resolvi transformar na contadora de todas as outras histórias. Esse primeiro texto, que escrevi numa única noite, nasceu de uma experiência estranha que ainda hoje não sei explicar (habitualmente não sou capaz de escrever muitos parágrafos por dia). Embora narrativo, sinto-o como um (quase) poema. No verão seguinte ao da publicação do livro, essa árvore morreu numa noite de vento, depois de se partir literalmente pelo tronco, devido à quantidade e ao peso excessivo dos frutos. Era centenária. Na altura, tive dificuldades em lidar com aquele desaparecimento. Foi um momento lírico.
Em 2012, foi publicado o romance A Esmeralda do Rei, cuja narrativa incide sobretudo no reinado de D. Sancho I e que resultou de um gosto particular que tenho vindo a aprofundar pela História medieval de Portugal. A par deste romance, uma grande amiga, Catarina Gaspar, publicou o livro de poemas A Esmeralda O Rei, inspirados na personagem do romance. Foi um projeto de partilha. Esta personagem, a Esmeralda, fez parte das nossas vidas durante alguns anos. Acho que ainda faz. Dela resultou também um conjunto de peças do escultor Carlos Oliveira, que têm sido expostas em várias galerias do país. Fiquei muito grato por algumas sensibilidades que a personagem conseguiu despertar. E fiquei ainda mais grato quando algumas escolas secundárias escolheram o livro e trabalharam-no, no âmbito da disciplina de português. Foi a melhor maneira de fazer cumprir a personagem e de eu me cumprir, também, enquanto autor da história. Entretanto participei recentemente numa coletânea de contos infantis, Histórias do Vale Encantado, mas tenho alguma dificuldade em escrever para crianças.” Refere o autor.

A Esmeralda do Rei é um romance histórico que remonta à Idade Média. Apesar da ficção, há uma base real. Foi difícil levar a cabo a pesquisa necessária? Quanto tempo lhe dedicou?
A pesquisa é uma das fases que mais prazer me dá. Devido à minha vida profissional muito preenchida, aproveitava todos os momentos livres que conseguia para me dedicar a ela. Foram mais de três anos a pesquisar em bibliotecas, na net até às tantas, na Torre do Tombo. Muitos fins-de-semana em visita aos locais por onde a Esmeralda (a personagem principal) andou, percorrendo o país de norte a sul e até algumas regiões espanholas de fronteira. Precisava de respirar o ar e de sentir o pulsar daqueles lugares. Passou a ser físico. Foi uma experiência muito avassaladora e difícil de explicar. A minha família no início nem compreendia muito bem a razão de eu querer ir a certos sítios. Mas íamos todos e acabava por se tornar divertido. Há pouco tempo, por exemplo, a propósito do próximo projeto, fomos quatro dias para Toledo. Passei as tardes enfiado na catedral à procura de um túmulo.

Como se define o Paulo Pimentel enquanto autor?
Não se define. Nunca pensei nisso nem é coisa que me preocupe. Quando escrevo, faço-o num estado de verdadeira entrega. O meu processo criativo absorve-me tanta energia que chega a doer. Sei que afirmar isto de forma descontextualizada parece ridículo, mas é mesmo assim.
No caso dos textos de inspiração histórica, procuro ao máximo respeitar a História e até a língua. Sou capaz de ler um parágrafo dez vezes e alterá-lo outras tantas, até senti-lo próximo do produto final. É uma mania mesquinha e irritante, que não consigo evitar. Chego a dar-me ao trabalho de procurar utilizar linguagem de época: muitas vezes recorro a vocábulos, construções sintáticas e expressões que já não estão em uso. No fundo é fazer e ajudar a fazer uma viagem no tempo. É provocar experiências nos outros. E para mim, talvez seja um processo individual de libertação, uma fuga. Quando era pequeno, sonhava muito com acontecimentos ocorridos em épocas distantes. Ainda me acontece, embora com menos frequência.

Como carateriza a sua escrita? Tem noção de que é um autor que sabe fugir aos lugares comuns e que é detentor de uma habilidade ímpar no jogo das palavras. Fá-lo propositadamente ou essa escrita mais rebuscada é mesmo a sua assinatura?

Gosto muito do jogo das palavras. O tempo que demoro a escrever um livro não me preocupa minimamente. Gosto da experiência de usufruir de cada parágrafo, de cada capítulo, de me emocionar com as personagens, de me zangar com elas, de mergulhar até ao seu âmago, em busca do que têm de melhor ou de mais sórdido. O processo de construção das personagens dá-me um grande gozo. A partir de determinado momento, começo a respeitá-las mais e passam a ser uma espécie de ente que vive comigo. É um território que gosto de explorar, o de construir personagens, desde o plano físico, ao complexo universo da personalidade, das emoções e das relações. Entendo o resultado do que escrevo como uma espécie de viagem. São viagens no tempo, no/s espaço/s, pelo interior das personagens. Às vezes não passam de deambulações, mas a minha escrita necessita de movimento constante. E de sentido/s.

O que pensa da literatura portuguesa atual? Há bons novos autores?
Há, na minha opinião, literatura de grande qualidade a ser produzida em Portugal, e de língua portuguesa, tanto na esfera da prosa como da poesia. E também há muito lixo. Esse, felizmente é esquecido. E muito boa literatura que não será infelizmente reconhecida, porque não chega às grandes editoras e que, por conseguinte não chega ao grande público. Talvez deva ser mesmo assim, dada a dimensão e os hábitos de leitura no nosso país.
Quanto aos novos autores, prefiro referir-me a grandes livros. Já li vários livros de um mesmo autor e ter opiniões completamente divergentes: ter uma boa surpresa num livro, ficar rendido e andar dias a pensar naquele livro, e uma grande desilusão no livro a seguir. E isto pode não estar relacionado com a qualidade de escrita (já nem leio coisas que considero não terem qualidade, faltam-me o tempo e a paciência!), mas com a empatia gerada ou com o meu estado de ânimo no momento da leitura.

Na sua opinião, o surgimento das pequenas editoras, a maioria delas vanitys, são realmente benéficas para os novos autores ou são apenas mais um negócio que explora os sonhos e o ego de autores que ainda não foram levados em conta pelas grandes editoras?

Custa-me muito lidar com a ilusão e com a mediocridade. Trabalho num serviço de cultura que também integra uma biblioteca e passam-me pelas mãos, com muita frequência, livros e textos que considero serem muito medíocres. Alguns até com erros grosseiros, ao nível da morfossintaxe, ao nível da representação do pensamento e da construção da própria narrativa. Da poesia, então nem se fala! Continuamos a achar que somos um país de poetas e que a poesia é qualquer coisa que rime, nem que para isso se recorra a conjugações verbais forçadas e sem sentido algum. Leio os primeiros versos ou parágrafos e ponho de parte. Até já tenho ficado angustiado, porque o meio onde vivo é pequeno e as pessoas conhecem-me e vêm com alguma frequência pedir opinião sobre o que estão a escrever, porque querem muito publicar um livro. É uma obsessão que toma conta de muita gente. Uma falta de consciência literária. Um despojamento ou uma ausência mesmo de conhecimentos básicos. E o pior é que há editoras que se prestam a publicar essas mediocridades, por razões de lucro imediato e as pessoas, mesmo assumindo os custos da publicação, ficam com o ego alimentado e pensam que são escritoras. É perverso e é uma falta de respeito pela literatura, pela edição, e por todo o processo que um livro deve passar, desde que o texto sai das mãos do autor até chegar às livrarias. E é uma falta de respeito por quem encara a literatura como uma arte.
Por outro lado há pequenas editoras, com obras de autores desconhecidos e que se pautam pela procura da qualidade. Infelizmente são poucos os exemplos.
E ainda há as grandes editoras que publicam coisas sem grande interesse ou qualidade, mas que têm poder suficiente para catapultar esses autores, porque os temas abordados vão muitas vezes ao encontro das necessidades superficiais de determinadas classes de leitores. Diz-se que o mercado é pequeno mas há de tudo.


Costuma ler? Quais são as suas referências literárias?
Tenho o vício da leitura e gosto de ler coisas diferentes, quase todas as áreas da ficção narrativa, boa poesia, biografias, livros de História, crónicas, diários, teses, artigos de opinião em jornais e blogs, crítica literária, etc. Gosto de ler no geral. A minha mesa-de-cabeceira tem sempre livros. Não tenho autores de referência, a não ser talvez na poesia e são variados. Sei que é lugar-comum, mas não abdico do grande Fernando Pessoa e dos seus heterónimos. Gosto muito da Sofia de Mello Breyner, da Maria Teresa Horta, do Eugénio de Andrade, do Herberto Helder, do Pablo Neruda e do Mia Couto, na prosa e na poesia. Também gosto muito da poesia do José Luís Peixoto e de alguns dos seus livros em prosa. Considero a Desumanização do Valter Hugo Mãe um livro colossal, em todas as suas dimensões, assim como os Cem Anos de Solidão do Gabriel Garcia Marquez. Na área do romance histórico, gosto dos livros de alguns autores espanhóis, nomeadamente o Ildefonso Falcones e a Rosa Montero. A História do Rei Transparente é um livro maravilhoso e muito inspirador. E gosto, de vez em quando, de regressar aos clássicos do romance do século XIX. Acho que é com eles que se pode aprender a escrever.

Qual vai ser o próximo título de Paulo Pimentel? Teremos mais um romance na mesma linha? Quando é que os seus leitores podem contar com ele?

O próximo título é A Rainha Desalmada e, não sendo propriamente um romance histórico, é um romance de inspiração histórica. Isto é, decorre no reinado de Sancho II de Portugal e serve-se deste período conturbado da nossa História, mas debruça-se sobretudo nas personagens e nas suas cadeias de relações. À medida que fui investigando sobre a vida deste rei, fui desenvolvendo uma relação de amor-ódio com ele e com a sua rainha, Mécia Lopez de Haro, personagem pouco conhecida da nossa História, mas que tem dado azo a opiniões muito divergentes (tanto ela como o próprio rei) e alimentado polémicas entre historiadores, embora tenha vivido poucos anos em Portugal. É uma personagem intrigante e que mexe com as minhas emoções. O texto está praticamente terminado. Vai descansar agora um ou dois meses para começar a ser revisto. Não sei quando é que será publicado, pois não tenho ainda editora para ele. Mas gostava de o publicar em breve. Os textos cumprem-se nos leitores. Na verdade, ainda não o dei a ler a ninguém. Logo se verá.



segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Guardiã já está nas Bertrands!





O romance " A Guardiã, O Livro de Jade do Céu" já está por aí. Eis as Bertrands onde o podem encontrar:

  • Aveiro
  • Chiado
  • Campo Pequeno
  • Torres Vedras
  • Colombo
  • Norte Shopping
  • Amoreiras
  • Almada Forum
  • Leiria
  • Montijo
  • Portimão
  • Açores (Ponta Delgada)
  • Coimbra Dolce Vita
  • Vasco da Gama
  • Antas (Porto)
  • Dolce Vita Funchal
  • Caldas da Rainha
  • Forum Sintra
  • Dolce Vita tejo
  • Shopping Cidade do Porto 


*Se forem a qualquer loja Bertrand em que o livro não esteja exposto, peçam. Se não estiver na loja, o livreiro pedirá à editora.

segunda-feira, 20 de março de 2017

História em Pedacinhos - As casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar

Sinopse: 

"− Olha ali! É aquele! O da camisa amarela!

Sei que olhei, acenei… e fechei dentro de mim uma amálgama de sentimentos e emoções inexplicáveis. Nesse momento, descobri que o meu pai era, afinal, um estranho, um estranho de camisa amarela, um rosto igual a outros tantos… não se deu o milagre."


A autora é Maria Cecilia a protagonista desta história em pedacinhos que revela muito do que foi a sua vida, a partir dos 6 anos. A família que emigra em busca de uma vida melhor, primeiro o pai, depois a esposa e a filha que deixam a ilha da Madeira para partirem à descoberta de um mundo novo.

Toda a história apela às emoções do leitor. Nela, a inocência enternecedora de uma criança é relatora das vidas dos personagens. Uma história contada na primeira pessoa, com uma escrita fluida e um enredo forte que leva o leitor a mergulhar na narrativa. Um livro que apela aos sentidos e apaixona quem o lê.

A Maria Cecilia está de parabéns e só desejamos que ela continue a escrever, porque temos a certeza, ela sabe fazê-lo muito bem. Se recomendamos este livro? Claro que recomendamos!

"A casa onde habito não é a casa onde moro."
(pág. 71)

Aqui há ternura!!

quarta-feira, 1 de março de 2017

Escola da Ponte

Depois de ter revolucionado os moldes tradicionais de ensino na Escola da Ponte, o professor português  José Pacheco, residente no Brasil, considera que é preciso mudar a mentalidade dos professores para inovar na Educação.

Foto de Edições Mahatma.Localizada a cerca de 30 Km do Porto a Escola da Ponte é hoje a única que se distingue em Portugal graças ao seu modelo de ensino ímpar. À semelhança do que vai acontecendo em alguns países do norte da Europa, como Finlândia e Dinamarca, na Escola da Ponte portuguesa não existem turmas, exames  ou programas de ensino pré-definidos. Os alunos e professores são completamente autónomos e entre o que é ensinado e aprendido está apenas um aluno motivado.

Por ocasião do lançamento do seu mais recente livro " A Avaliação da Aprendizagem na Escola da Ponte", que tem a chancela das Edições Mahatma, a Bee Dynamic Books aproveitou para entrevistar o Professor José Pacheco.

Durante o mês de Março, o professor e co-autor da obra, estará mais uma vez em Portugal, desta vez para levar a cabo várias palestras inseridas também nas sessões de apresentação da obra.



Verifique a agenda de José Pacheco no final da entrevista e fique a saber qual  a cidade mais próxima de si  onde  poderá assistir a uma apresentação.


Entrevista

José Pacheco, educador português



Bee Dynamic Books- A Escola da Ponte é um projecto que visa sobretudo uma maior autonomia tanto para os alunos quanto para os professores. Para além desta, quais são as principais diferenças que podemos encontrar entre o modelo de ensino que defende e aquele que todos conhecemos?

Prof. José Pacheco- Venho repetindo que a profissão de professor não é um ato solitário, que o professor deve fazer da sua profissão um ato solidário. Professor sozinho em sala de aula é um dos absurdos do velho modelo de escola. Sozinho, ele não é autônomo. Sozinho, o professor é auto-suficiente. E, porque um professor não ensina aquilo que diz; mas transmite aquilo que é, um professor sozinho na sala de aula transmite individualismo... Por isso, uma das grandes diferenças consiste no fato de a |Ponte desenvolver autonomia, em conformidade com os valores constante da matriz axiológica do deu projeto educativo.
É necessário passar de uma cultura de solidão para uma cultura de equipe, de corresponsabilização. Sozinhos, os professores nunca conseguirão ensinar tudo a todos. O professor assume dignidade profissional, sendo autónomo-com-os-outros.
O trabalho em equipe pressupõe um permanente convívio, estabilidade e lealdade a valores e princípios de um projeto. Isso não acontece, por exemplo, no contexto de escolas onde existe um horário padrão. Porquê 50 (ou duas vezes 45) minutos de aula, se a aprendizagem acontece 24 horas por dia? Porquê 200 dias letivos, se nos educamos nos 365 (ou 366) dias de cada ano?
Eis outra diferença: uma gestão diversificada de tempos numa multiplicidade de espaços.
Muitas outras poderia referir, mas quedar-me-ei por uma, que talvez seja o “nó górdio” da crise que a Escola atravessa. Quando o professor reelaborar sua cultura pessoal e profissional, o resto mudará. Talvez, então, a escola possa se reorganizar operando uma definitiva ruptura com o velho paradigma da escola, quando forem eliminando erros do modelo atual de formação. Não duvido de que as universidades disponham de excelentes professores. As universidades dispõem de excelentes formadores, que praticam uma formação reprodutora de um modelo escolar, que deu resposta a necessidades sociais do século XIX, mas que não faz sentido manter no século XXI. A formação de professores continua imersa em equívocos. Ainda há quem creia que a teoria pode preceder a prática e encha a cabeça do formando de tralha cognitiva, ingenuamente acreditando que ele irá “aplicá-la” na sala de aula. Ainda há formadores que adestram formandos na planificação de aulas, quando deveriam prescindir dessa inútil herança de práticas sociais do século XIX. Ainda há quem considere o formando como objeto de formação, quando deveria ser tomado como sujeito em transformação, no contexto de uma equipe.

BDB- Na obra que a Editora Mahatma leva a público – Avaliação da Aprendizagem na Escola da Ponte- encontramos uma avaliação positiva a este sistema de ensino?

JP-Creio que sim. Mas deverão ser os leitores a dizê-lo...

BDB- Quais são as principais mais-valias?

JP-Os efeitos do projeto, que relatórios de comissões de avaliação independentes atestam são bem melhores do que os obtidos pelas escolas ditas “normais”. Esses resultados constam de relatórios de avaliação externa, elaborados por equipes nomeadas pelo Ministério da Educação de Portugal. São produto de uma avaliação isenta, e atestam a elevada qualidade das aprendizagens realizadas pelos alunos.
Diz-nos o último dos relatórios de avaliação que, quando transitam para outras escolas, os alunos da Ponte alcançam melhores notas do que os alunos de outras escolas conseguem alcançar. E, se no domínio cognitivo isso acontece, muito mais significativos são os níveis de desenvolvimento sócio moral.
É grande a preocupação com a vertente ética. Sabemos que o desenvolvimento ético acompanha o desenvolvimento cognitivo, sendo mutuamente influenciados. Não fragmentamos os saberes: estudos realizados com adultos formados ao longo dos últimos 40 anos demonstram que todos os nossos ex-alunos são pessoas socialmente integradas e realizadas. Talvez possa acrescentar que a Escola da Ponte provou que é possível outra educação, aliando excelência acadêmica à inclusão social. 

4)- O Ministério da Educação em Portugal, os pais, os alunos, como é que olham para a Escola da Ponte e seu modelo?
Os pais olham-na com senso crítico e elevadas expectativas. Aliás, fazem-no sendo maioria no órgão de Direção da escola... A Ponte não tem diretor.
Os jovens vêem-na, não como alunos (os “não iluminados”), mas como sujeitos aprendentes, no exercício de uma liberdade com responsabilidade, que lhes propicia uma aprendizagem da cidadania no exercício da cidadania.
Quanto ao ministério...
A Escola da Ponte é, infelizmente, a única escola com um contrato de autonomia, que ainda contém uma réstea de autonomia... No quadro dessa autonomia mitigada, a Ponte escolhe os seus professores (por concurso universal e com regras!) Os professores não deverão fazer concurso para ter um emprego, para trabalhar na escola mais próxima da sua residência, nem trabalhar em duas ou três escolas, para assegurar um melhor salário. O professor deverá aderir a um projeto, em dedicação exclusiva. Eis mais uma difeença. 
Talvez devamos apelar ao bom senso dos titulares do poder público, pedir-lhe que esteja atento a excelentes práticas que muitos educadores vêm produzindo. Intuo que as escolas carecem de espaços de convivência reflexiva. Que precisamos compreender que pessoas são aquelas com quem partilhamos os dias, quais são as suas necessidades (educativas e outras), cuidar da pessoa do professor, para que se veja na dignidade de pessoa humana e veja outros educadores como pessoas. E compete ao Ministério da Educação criar condições para que tal aconteça.

BDB- Uma das alterações que defende ao sistema de ensino é o fim dos exames. Sem exames, como é que se avaliam as competências e conhecimentos adquiridos?

JP- O atual Governo talvez esteja a resistir à tentação da examocracia (à praga dos exames nacionais). Acabamos de sair de um período de governação durante o qual se insistiu na ideia de que realizar mais exames contribui para a melhoria das, o que constitui uma medida de política educativa equivocada. Porque não é a preocupação com o termómetro que faz baixar a temperatura...
Quando escutava os anteriores responsáveis pelo Ministério da Educação falar da Finlândia como referência de boa qualidade da educação, eu perguntava se falavam da mesma Finlândia que eu conhecia. Porque os via introduzindo mais provas, quando a Finlândia já havia prescindindo de realizar exames.
Um exame pouco, ou mesmo nada prova. É um dos mais falíveis instrumentos de avalição. Talvez por isso, a Finlândia os tivesse abolido... E, se os anteriores responsáveis ministeriais insistiram em os multiplicar, isso só pode ser reflexo de ingenuidade pedagógica.
E ainda há professaurios que crêem na bondade dos rankings! Nos primeiros lugares, são incensadas escolas particulares, que obtêm “bons resultados” à custa de uma pré-seleção de alunos e da prática de um subtil darwinismo social. Os que são submetidos ao decorar matéria sem sentido (sem atender a um dos princípios básicos da aprendizagem: o da significação), para verter em testes e, depois... esquecer. Um teste quase nada prova. É um exercício inútil e até mesmo prejudicial.
Quando um professor fica na sala, a vigiar jovens, ele presume que esses jovens são potencialmente desonestos, se puderem copiar, vão copiar... O professor-polícia não fala, mas o não-verbal fala mais alto. O vigilante está a transmitir valores em que acredita, está a desenvolver aquilo que as ciências da educação designam por currículo oculto. O professor que aceita a indigna situação de fiscal está a transmitir deslealdade, falsidade, mentira...
As competências e os conhecimentos poderão ser avaliados, se nas escolas se concretizar uma efetiva avaliação formativa, contínua e sistemática. Os registos de avaliação e as evidências de aprendizagem constantes de portefólio de avaliação poderão dizer-nos o que, efetivamente, as crianças aprenderam, quer no domínio intelectual, quer no domínio atitudinal, porque o ser humano não é apenas cognição, é multidimensional. Os jovens também são afeto, ética, estética...

BDB-Com um modelo de ensino tão diferente, como é que se cumprem programas, currículos e alcançam metas de aprendizagem?

JP-É com “um modelo de ensino tão diferente” que se cumprem programas, currículos e alcançam metas de aprendizagem. No contexto do velho e obsoleto modelo de ensino, de que a maioria das escolas enferma, nunca será possível cumprir programas, currículos, ou alcançar metas de aprendizagem. Muito menos propiciar uma educação efetivamente integral.
As escolas transformar-se-ão quando, através da referência a uma matriz axiológica, a uma visão de mundo e sociedade traduzidas num projeto, operem rupturas com uma tradição de educação hierárquica e burocrática. Quando ousarem, com prudência (crianças, não cobaias de laboratório...) reconfigurar as suas práticas, assumir formas específicas de organização do trabalho escolar, em dispositivos de relação, nas atitudes do dia-a-dia, que viabilizem práticas de educação integral. Quando as escolas cumprirem, efetivamente, os seus projetos educativos. Algo que não acontece na maioria das escolas. Sei que esta afirmação poderá irritar alguns cultores do velho modelo. Por isso, me disponibilizo para um debate construtivo, fraterno.

BDB- O que é que, na sua opinião, podemos esperar do futuro da Educação em Portugal?

JP -Fiz parte do Conselho Nacional de Educação e fui relator do Parecer sobre a proposta de lei da Reorganização Curricular. Já nessa altura, há cerca de duas décadas, manifestei a minha surpresa e desagrado por ver manterem-se iniciativas de política educativa, que não questionavam arcaísmos pedagógicos. Na época, era o estudo acompanhado, a área de projeto, a educação cívica, que eram propostos como paliativos do velho e obsoleto modelo de ensinagem. Como se o civismo fosse ensinado em uma ou duas horas por semana e não devesse estar presente em todos os momentos de aprender a ser e a conviver. Como se projeto fosse algo para trabalhar em uma ou duas aulas semanais...
Nos últimos anos, apesar da profusão de tentativas de reforma, programas, projetos, congressos, cursos e afins, não se logrou melhorar a qualidade da educação nacional. Esse desiderato será alcançado quando as escolas deixarem de estar cativas de um modelo educacional obsoleto e de uma gestão burocratizada, na qual os critérios de natureza administrativa se sobrepõem a critérios de natureza pedagógica. E subsiste uma criminosa conivência do poder público e, em particular, do Ministério da Educação em relação a essa nefasta situação.
Temo que essa situação de impunidade se mantenha. Temo o obsceno silêncio dos pedagogos, porque, ainda há pouco tempo, vi e escutei alguns, numa reunião com a Comissão de Educação da Assembleia da República, bizantinamente debatendo o número de alunos por turma e sala de aula, no pressuposto de que deve haver turmas, aula e sala de aula. Esse debate seria ridículo, se não fosse trágico...

BDB)- O livro que acaba de publicar tem entre os docentes o seu público alvo ou também pais e alunos são um alvo apetecido?

JP- Publiquei, em vários países, mais de trinta livros. Desses, apenas um está publicado em Portugal... O formato e conteúdo desse e de outros livros respondem à necessidade de aliar à fundamentação científica e pedagógica um discurso acessível ao leitor comum. Correspondem a uma latente solicitação de uma sociedade, que tomou consciência da falência do modelo de ensino a que os seus jovens ainda são sujeitos, que se apercebeu de que podemos realizar aprendizagens em múltiplos espaços sociais (e que, dentro do edifício da escola, quase nada se aprende...) e que já se anuncia a possibilidade de conceber novas construções sociais de aprendizagem.
No edifício da escola, nas praças, nas empresas, nas igrejas, nas bibliotecas públicas, e centros culturais, passamos a contemplar um novo modo de desenvolvimento curricular, duas vias complementares de um mesmo projeto: um currículo subjetivo, e um projeto de vida pessoal, a partir de talentos cedo revelados; um currículo de comunidade, baseado em necessidades, desejos da sociedade do entorno. 
Quando fui aluno de escola "tradicional", gastei um tempo precioso a decorar os afluentes da margem esquerda de rios e de outras lengalengas que, agora, me ocupam a memória de longo prazo. Não me fizeram mais sábio, nem mais feliz. São muitos e diversos os caminhos de mudança, sendo urgente que os educadores compreendam o que significa o termo “currículo”. Que, por exemplo, os professores não percam tempo a tentar ensinar fora de tempo o que é um "dígrafo", ou expressões como "sujeito nulo subentendido", o que são "plantas epífitas", ou em que consiste um "ato ilocutório diretivo".
É preciso experimentar um novo modo de organização, em equipes de pessoas autónomas e responsáveis, todas cuidando de si mesmas e de todo o resto, numa escola realmente “pública”. Não negando o potencial da razão e da reflexão, juntar-lhe as emoções, os sentimentos, as intuições e as experiências de vida. E uma escuta que, para além do seu significado metodológico, terá de ser humanamente significativa e de assentar numa deontologia de troca “ganha-ganha”.
Que se perceba que toda a prática tem teoria subjacente, que não há prática sem teoria. E que a fundamentação teórica do ato de educar seja multirreferencial, numa práxis coerente com necessidades educativas locais, escapando a modas e fundamentalismos pedagógicos. Que a aprendizagem não está centrada no professor, nem no aluno, mas na relação. E que da qualidade da relação depende uma boa qualidade educacional.
As escolas poderão desenvolver um currículo mais adequado às novas competências e exigências do século XXI. A velha escola há de parir uma nova educação. Mas as dores do parto serão intensas, enquanto as “naturalizações”, as “certezas”, as crenças ministeriais, a tecnocracia e a burocracia continuarem a prevalecer em domínios onde deveria prevalecer a pedagogia.

AGENDA:

O Professor José Pacheco, co-autor do livro " Avaliação da Aprendizagem na Escola da Ponte" estará em Portugal para uma sequência de apresentações da obra e palestras. Verifique a agenda e não perca um destes eventos!
Agenda
Sexta feira dia 3 de março (das 14h às 19h) - Hotel S. Rafael Atlântico - ALBUFEIRA
Sábado dia 4 de março (até às 16h) – Hotel S. Rafael Atlântico – ALBUFEIRA
Sábado dia 4 de março (das 18h às 20h) – Biblioteca Municipal José Saramago – BEJA
Terça-Feira dia 7 de março (das 21h às 23h) – CESPU (Escola Superior de Educação)VILA NOVA DE FAMALICÃO
Quarta-Feira dia 8 de março (das 21h às 23h) – Salão Municipal – VILA DO CONDE
Sábado dia 11 de março (das 9.30h às 16.30h) – Escola Agrária – COIMBRA
Domingo dia 12 de março (das 9.30h às 16.30h) – Escola Agrária – COIMBRA
Segunda-Feira dia 13 de março (local ainda a definir) - LISBOA
Terça-Feira dia 14 de março (Gulbenkian) – Lisboa
Quarta-Feira dia 15 de março – Entrevista no Programa Você na TV na TVI
Quinta-Feira dia 16 de março – ISCTE – LISBOA
Sábado dia 17 de março – (local ainda a definir) ALMADA


Foto de Edições Mahatma.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Rosas e Espinhos no Amor de Casal



É já esta sexta feira que o palestrante internacional José María Doria vem a Lisboa apresentar o seu mais recente livro com a chancela das Edições Mahatma. Não perca esta oportunidade para o ouvir numa palestra subordinada ao mesmo tema do livro ROSAS E ESPINHOS NO AMOR DE CASAL. Na sede do IPDJ (à Expo) às 20h de sexta feira dia 10 de Fevereiro.
Foto de Edições Mahatma.

É já amanhã!


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A Célula Adormecida

A nossa colega e autora Madalena Condado esteve à conversa com Nuno Nepomucemo por ocasião da apresentação do seu mais recente sucesso literário.

No passado dia 30 de novembro, na FNAC do Colombo, o escritor de thrillers Nuno Nepomuceno apresentou o seu mais recente livro “A Célula Adormecida”. Neste seu último trabalho tratam-se assuntos tão atuais como religião e terrorismo.

Para quem já leu as anteriores obras do Nuno sabe que o talento está todo lá, não deixará, contudo, de ser surpreendido pelos locais, as situações, mas principalmente pela transformação que se nota na sua escrita mais fluída, consistente e viciante. Na “A Célula Adormecida” consegue sentir-se um grandioso enriquecimento de conteúdos na sua abordagem a temas tão polémicos que nos entram em casa diariamente através da televisão. 
Neste dia tão importante para o Nuno estavam sentados à sua mesa as pessoas que de alguma forma contribuíram para este seu novo sucesso. O seu editor, o Sheikh Munir (Imã da Mesquita Central de Lisboa) e Luís Pinto do blog Ler Y Criticar.
Lembro-me de uma das frases ditas pelo seu editor que me marcou particularmente e que passo a citar: “Todos os editores tentam encontrar o seu escritor e eu tive o privilégio de o encontrar no Nuno”. Mas se é verdade que escrever requer muita paixão, e principalmente talento, tudo qualidades que o Nuno tem na medida certa, também é certo que por detrás de um grande escritor tem que existir um editor que acredite nesse trabalho e ajude na promoção do mesmo.

“A Célula Adormecida” é um livro psicológico onde o suspense impera, trata de um tema atual e controverso sempre contextualizado com factos. Acredito que foi necessária muita pesquisa para se documentar, passo importante para conseguir manter o leitor preso à sua leitura do início ao fim. Consegue uma vez mais como lhe é típico dizer muito com poucas palavras, mas mais importante ainda leva-nos a questionarmo-nos a cada folhear de página sobre tudo o que não compreendemos e temos medo na religião e no terrorismo. 

O Sheikh Munir começou por nos cumprimentar a todos com uma bênção Salaam Aleikum (a paz esteja convosco), explicou o fascínio que o interesse do Nuno lhe tinha despertado principalmente quando percebeu que a estória do livro seria passada durante os 30 dias do Ramadão. Aproveitou para esclarecer o significado desses dias: os 10 primeiros sendo os dias de misericórdia, os 10 posteriores de perdão sendo que os últimos 10, os dias em que pedimos salvação. Confessou ainda que tinham sido a persistência, curiosidade e conhecimentos do Nuno sobre os assuntos abordados o impulso que necessitara e o levara a acreditar que os temas falados neste livro através da sua visão tinham tudo para correr bem.

O Nuno confessou que o seu género de escrita favorito é a espionagem, mas que com este seu último livro quis dar um passo em frente chegar a mais pessoas não somente para as entreter, mas também para transmitir uma mensagem. Na “A Célula Adormecida” tenta desmistificar o Islão, a comunidade muçulmana em particular ao mesmo tempo que aborda temas como a xenofobia, racismo, expressão social, consegue colocar-nos a pensar na forma como cada um de nós tende a julgar as outras pessoas. 
Mas para o conhecerem ainda um pouco melhor coloquei-lhe três questões e aconselho vivamente a seguirem-no através das suas páginas e quem sabe aparecerem numa próxima apresentação para trocarem dois dedos de conversa. É garantido que vão gostar. 

Como se descreveria? 

Chamo-me Nuno, tenho 38 anos, escrevo profissionalmente há 4, gosto de cinema, fazer BTT, passear com o meu cão, ler e escrever. 

Dá muito valor à investigação e às suas fontes antes de começar um livro ou foi somente para a escrita da "Célula Adormecida"? 

A investigação é uma parte muito importante do meu processo criativo e que me acompanha desde o meu primeiro livro. Não consigo iniciar um manuscrito completamente do zero. Preciso sempre de estudar e saber mais, de me preparar corretamente para o que vou enfrentar a seguir, e só depois disso é que surgem as ideias , que me sinto seguro em relação ao rumo escolhido. Escrevo thrillers, mas não me considero extremamente comercial. Julgo que ofereço conteúdo. Os meus livros não são uma sucessão de twists com vista a manter o leitor agarrado, mas sim histórias ricas em intriga de forma a apaixoná-lo. E tal só se consegue se estivermos convenientemente preparados. Por exemplo, em A Célula Adormecida, o tempo que despendi em pesquisa ultrapassou o da redação do livro.

Não tem medo que o tema que aborda no seu último livro se possa vir a tornar uma realidade no nosso país? Que de alguma forma esteja a dar algumas "ideias" de como o fazer e onde? 

Há sempre esse risco, mas não creio que o livro incite à violência. Esse teria sido o caminho mais fácil — aproveitar as controvérsias que rodeiam o Islão e explorar a parte mais negativa do extremismo. O que procurei fazer com A Célula Adormecida foi introduzir uma abordagem inovadora não só ao nível do tema do livro, como da religião muçulmana em si. Quem o ler irá encontrar uma obra bem diferente do que o título sugere. A mensagem final que transmite é de paz, esperança. 


“O terror está no meio de nós”